Do Ex-blog do César Maia:
1. A surpreendente notícia do falecimento de Dona Ruth Cardoso trouxe a memória o momento em que ela idealizava e introduzia o programa bolsa-escola. Criadora do Comunidade Solidária, ao tempo que desenvolvia os programas clássicos de inclusão e promoção, sociais, analisava as experiência que eram desenvolvidas por estados, municípios e ONGs. No início de 1996 a primeira dama na época pedia ao Prefeito do Rio uma agenda. Descreveu as experiências que acompanhava em relação aos programas executados de bolsa-alimentação e destacava os municípios -Campinas, além do Rio- entre outros, que haviam vinculado a bolsa-alimentação à freqüência escolar.
2. E trazia já desenhado o que seria o programa Bolsa-Escola, onde a bolsa alimentação seria substituída por uma renda direta, vinculada a freqüência escolar. A Prefeitura do Rio imediatamente aderiu a essa transformação, na medida em que aquela vinculação já era exigida. Em função disso, a secretária de desenvolvimento social da Prefeitura do Rio -W. Engel- foi convidada por Dona Ruth, para após o término da gestão municipal, ir coordenar esse e outros programas junto a ela. E assim foi.
3. Se alguém procura maternidade ou paternidade para os programas de inclusão social associados à renda, a Prefeitura do Rio é testemunha de que coube a Dona Ruth Cardoso idealizar, desenhar e implementar este programa em parceria com municípios e estados. A ela o reconhecimento e a admiração permanentes de nosso Povo. E a saudade de todos!
Gilberto Dimenstein, na Folha de S.Paulo:
Ruth Cardoso é um dos personagens discretos por trás da maior realização social da gestão Lula: a Bolsa Família.
Como uma das mais notáveis estudiosas brasileiras da questão social, Ruth Cardoso ajudou, quando era primeira-dama, na implementação de ações governamentais que fossem focadas e envolvendo diferentes esferas de poder, num esforço para evitar a superposição da tarefas e desperdício de recursos.
Havia tempo, ela observava a pulverização inconseqüente de planos oficiais. Até então praticamente não existiam no país projetos envolvendo tantos e tão diversos ministérios e secretarias, centrados no município.
Nessa visão, ela vinha impulsionando, dentro do governo FHC, um plano para que as diferentes bolsas (bolsa-escola, bolsa-alimentação etc) existentes fossem unificadas em torno de apenas um eixo –no caso, a família. Buscava-se um único cadastro para os programas.
Todo esse esboço de unificação já estava encaminhado quando Lula assumiu poder.
Da BBC-Brasil:
Para o professor e cientista político Anthony Hall, da London School of Economics (LSE, Escola de Economia de Londres), a contribuição da ex-primeira dama e antropóloga Ruth Cardoso, falecida na terça-feira em São Paulo, ajudou a mudar os rumos da política social no Brasil.
“Ela foi uma peça fundamental na idéia de unir os vários programas sociais e de transferência de renda dos anos 90 em um único programa”, disse Hall em entrevista à BBC Brasil.
O acadêmico explica que vários programas locais de combate à pobreza se espalharam pelo país na década de 90, especialmente no nível municipal, em cidades como Campinas, Belo Horizonte, Blumenau, Vitória e outras localidades.
Ele acredita que essas iniciativas teriam culminado com a criação do Bolsa Escola, em Brasília e, mais tarde, na adoção do Bolsa Família como um programa nacional do governo brasileiro.
Segundo ele, Ruth Cardoso teria sido quem impulsionou a unificação dos programas de transferência de renda e de combate à fome no país e teria sido ela quem persuadiu o então presidente Fernando Henrique a adotar esse sistema unificado em nível nacional.
“Muitas pessoas acreditam que ela foi de fato a primeira pessoa que pensou na idéia do Bolsa Família, apesar de o programa não ter esse nome na época. Mas essa idéia de unificar os programas, criar uma economia mais equilibrada e eficiente, foi exatamente o que Lula fez quando assumiu o governo em 2003″, disse.
Para Hall, por essas razões é possível afirmar que Ruth Cardoso foi uma das pessoas mais influentes para a mudança de direção nas políticas sociais do Brasil a partir da década de 90.